Passados mais de dois anos das inundações que ocorreram em maio de 2024, diversas famílias no Rio Grande do Sul ainda enfrentam desafios significativos relacionados à habitação. Entre as dificuldades estão obras sem conclusão, residências que permanecem inabitáveis, deslocamentos forçados e a preocupação constante com novas chuvas.
No município de Canoas, Rosângela retornou para sua casa após participar ativamente do resgate de moradores e animais durante o período crítico da enchente. Seu imóvel, localizado no bairro Mathias Velho, ainda sofre com infiltrações, umidade e problemas nas instalações elétricas. Após a calamidade, a residência também foi usada para armazenar doações e preparar refeições para aqueles que voltavam para a área afetada.
Enedina, outra moradora da mesma região, perdeu sua casa, que estava situada no mesmo terreno da casa de sua mãe, Dona Eva. Antes da tragédia, quatro residências no local abrigavam 16 familiares. Dona Eva recebeu uma nova moradia enquanto Enedina planeja ainda reconstruir seu lar.
<pDona Maria, de 79 anos e residente de Canoas, está à espera da finalização de uma nova casa. Sua antiga residência, onde viveu por aproximadamente sessenta anos, foi demolida para dar espaço à construção. Enquanto isso não acontece, ela reside em uma estrutura provisória nos fundos do terreno que apresenta problemas de umidade e mofo.
Em Estrela, Luciane perdeu sua moradia no bairro Moinhos, que foi classificado pela prefeitura como área imprópria para habitação. Ela recebeu verba pela modalidade Compra Assistida para adquirir outro imóvel. Contudo, mesmo com a propriedade registrada em seu nome, o antigo morador ainda ocupa o local e ela não conseguiu receber as chaves.
No município de Muçum, as inundações também afetaram o cemitério local onde Ivete trabalhava desde 2009. A prefeitura iniciou a construção de um novo espaço na Linha São Luís. O processo de transferência dos sepultamentos exigirá identificação dos corpos exumados, transporte e reinumação adequada.
A magnitude dos danos revelada por dados
Os relatos pessoais são corroborados por informações contidas na Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024, publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho de 2026. O estudo revelou que nos 133 municípios mais impactados pelas cheias foram contabilizados 81.272 domicílios totalmente destruídos e outros 190.253 severamente danificados.
Além disso, o levantamento estima que aproximadamente 349.366 pessoas foram obrigadas a mudar de residência devido às enchentes.
Um relatório do Ministério das Cidades divulgado em fevereiro de 2026 indicou que 10.588 imóveis foram contratados através da linha Compra Assistida do programa Minha Casa, Minha Vida. O governo federal também anunciou investimentos na construção de 9.350 novas unidades habitacionais no Estado durante esse período, sendo que 1.983 dessas moradias estavam em fase de obras pelo MCMV Reconstrução.
No âmbito habitacional no Rio Grande do Sul, o programa A Casa é Sua – Calamidade destinou R$ 66,7 milhões para erguer 500 módulos habitacionais temporários destinados às famílias cujas casas foram destruídas ou consideradas irrecuperáveis.
Entretanto, os dados referentes aos programas habitacionais não possibilitam determinar quantas famílias afetadas pelas enchentes ainda esperam uma solução definitiva para suas situações habitacionais, pois os critérios utilizados nas pesquisas variam entre si.
A escala da destruição
Uma árvore arrancada revela a força das águas que devastaram o antigo cemitério em Muçum. Muçum, RS
O dique em obras
Máquinas atuam na recuperação do dique em frente à casa da família. Em maio de 2026, os trabalhos ainda estavam em andamento. Mathias Velho, Canoas, RS
A espera na porta
Com um terço nas mãos, Dona Eva compartilha suas experiências durante a enchente enquanto aguarda pela reconstrução. Ao fundo, Enedina cuida da mãe.
Reconhecer o que restou
Dona Eva e uma filha caminham entre os destroços da antiga residência no bairro Mathias Velho. Canoas, RS
