A transformação impulsionada pela inteligência artificial está acelerando uma mudança que já se manifestava no mercado de trabalho: a obsolescência rápida de conhecimentos e habilidades. Nesse novo cenário, a capacidade de aprender continuamente ao longo da carreira pode ser mais crucial do que o domínio de uma habilidade específica.
Os números refletem esse desafio. Conforme revelado na mais recente edição do Relatório sobre o Futuro dos Empregos, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, cerca de 40% das habilidades exigidas nas profissões estarão em transformação até 2030. O estudo também destaca que 63% dos empregadores veem a falta de qualificação como o principal impedimento para a evolução dos negócios.
Mariana Achutti, CEO da Newnew e especialista em educação corporativa e futuro do trabalho, aponta que essa realidade demanda uma nova forma de pensar. Antes, era possível construir uma carreira através de ciclos prolongados de formação e especialização; hoje, é imperativo que o aprendizado acompanhe a rapidez das mudanças do mercado.
“Por muito tempo, fomos preparados para aprender uma profissão e acumular conhecimento ao longo da trajetória profissional. Esse paradigma está se transformando. Com a constante emergência de novas tecnologias e métodos de trabalho, a habilidade mais valiosa pode ser saber aprender novamente”, afirma Mariana.
A relevância dessa discussão é ampliada pelo avanço da inteligência artificial. À medida que surgem novas ferramentas que alteram processos e funções, os profissionais enfrentam um desafio que vai além do simples aprendizado de uma tecnologia específica. É essencial cultivar autonomia e repertório para discernir o que deve ser aprendido, revisar práticas obsoletas e integrar novos saberes.
No atual contexto, o conceito de Lifelong Learning, ou aprendizado contínuo ao longo da vida, passa a estar intimamente relacionado à própria prática profissional. A última edição do relatório do Fórum Econômico Mundial ressalta a importância das habilidades humanas em meio às mudanças tecnológicas, com competências como pensamento analítico, liderança, colaboração, curiosidade e aprendizado contínuo se tornando cada vez mais relevantes.
“Aprender continuamente não se resume a realizar cursos incessantemente. Trata-se de cultivar curiosidade, desenvolver um pensamento crítico e estar aberto à revisão do conhecimento já adquirido. Embora o conhecimento permaneça fundamental, a capacidade de atualizá-lo se torna tão importante quanto”, explica Mariana.
Essa transformação também traz um novo ônus para as empresas. Como o aprendizado agora faz parte integrante do trabalho, o desenvolvimento profissional não pode ser visto apenas como uma responsabilidade individual. As organizações devem criar condições que ofereçam aos seus colaboradores tempo, espaço e oportunidades para experimentar, compartilhar saberes e adquirir novas habilidades.
“É inviável exigir que as pessoas acompanhem um ritmo tão acelerado de transformação sem proporcionar as condições necessárias para o aprendizado. As empresas que desejam contar com profissionais aptos para o futuro precisam integrar o desenvolvimento à rotina diária e não tratá-lo como algo ocasional”, conclui Mariana.
