A cultura do Rio Grande do Sul está em luto com a perda da fotógrafa, pesquisadora e historiadora Irene Santos, de 79 anos, natural de Porto Alegre. Reconhecida por seu papel na valorização do legado afrobrasileiro, Irene faleceu na tarde de terça-feira (28), após passar dez dias internada no Hospital de Clínicas em virtude de complicações vasculares. O velório ocorrerá nesta quinta-feira, das 13h às 16h, no Ângelus Memorial e Crematório.
A amiga Lizandra Moraes, que também é produtora e documentarista de Irene e faz parte do Coletivo Almas Retintas, enfatiza: “Irene não se restringiu a registrar fatos”. Ela utilizou diversas linguagens artísticas para explorar a fotografia como um meio estético, um documento histórico e uma maneira de preservar experiências que poderiam se perder nos registros oficiais.
Irene Santos graduou-se em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1971. Desde então, ela manteve uma conexão entre pesquisa histórica e expressão artística. Durante sua formação acadêmica, participou de cursos sobre fotografia, desenvolvendo uma linguagem autoral que se concentrava nas pessoas, nas expressões culturais e na memória coletiva.
Seu primeiro trabalho foi na produção de fotolitos para a gráfica do Banrisul; fora do horário normal, dedicava-se a registrar eventos e criar imagens para promover espetáculos teatrais e musicais. Em 1979, decidiu deixar o emprego no banco para abrir seu próprio estúdio, onde passou a desenvolver projetos focados na experimentação e no diálogo entre as artes plásticas e cênicas, além da música e dos elementos afrobrasileiros.
As exposições de Irene abordaram temas como retrato, representação e simbologia da fotografia. Ao longo das últimas décadas, ela apresentou várias mostras em instituições renomadas como Theatro São Pedro, Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) e Casa de Cultura Mario Quintana, além de participar de eventos públicos como a Bienal do Mercosul.
“Negro em Preto e Branco”
Entre suas obras mais importantes destaca-se o livro “Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre”, publicado em 2005 com apoio do Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte). No ano seguinte, a obra foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC).
Lizandra ressalta: “A publicação trouxe à tona fotografias e relatos essenciais para reconhecer a presença negra na construção social e cultural da cidade. Esse trabalho foi fundamental para dar visibilidade a famílias, trajetórias e vivências que frequentemente eram negligenciadas na narrativa histórica oficial”.
Em 2010, lançou o livro “Colonos e Quilombolas – Memória das Colônias Africanas de Porto Alegre”, também com financiamento do Fumproarte. Essa obra aprofundou a pesquisa sobre relatos significativos para entender a formação urbana e cultural da capital gaúcha.
Irene também atuou no campo audiovisual. Ela criou o webdocumentário “Outros Carnavais — Memória do Carnaval de Rua de Porto Alegre (1930-1969)”, lançado em 2014 com recursos do Fumproarte. “Essa obra expandiu as possibilidades de divulgação da pesquisa histórica através da linguagem digital, conectando memória, documentação e acesso público”, comenta sua amiga Lizandra.
A mais recente realização de Irene Santos é a exposição fotográfica “A Força da Memória”, que está em exibição no Museu da UFRGS (localizado na avenida Osvaldo Aranha nº 277, bairro Farroupilha). Inaugurada em setembro, a mostra ficará aberta à visitação até 18 de dezembro. Em parceria com o Coletivo Almas Retintas, esta exposição celebra os 20 anos do livro “Negro em Preto e Branco”.
(Marcello Campos)
